A morte chocou os moradores de São Gabriel, na região central do Rio Grande do Sul. Após 13 dias do desaparecimento de Gabriel Marques Cavalheiro e seis dias após o corpo do jovem ser encontrado, o sentimento que permanece na comunidade é de revolta e de cobrança por respostas. Enquanto a investigação prossegue, o que resta para a população é oferecer apoio à família e reforçar o pedido de justiça.
Márcio Rutz Kohler, de 39 anos, mora em São Gabriel há 12 anos e gerencia uma loja de produtos variados. Ele conta que desde, que o caso tomou grandes proporções, ele sente que o movimento para compras diminuiu. Em frente ao estabelecimento, um pequeno cartaz em forma de homenagem a Gabriel foi colocado. Em entrevista ao Diário, ele conta que São Gabriel não é mais a mesma.
– Eu tenho um filho de 16 anos e me coloquei no lugar dessa família porque é chocante o que aconteceu com ele (Gabriel). É uma história que está totalmente confusa. Ele não conhecia a cidade, acredito que tenha sido um ato de brutalidade. Eu conheço parte da família do Gabriel, então, sentimos que temos que acolher e fizemos essa homenagem com o cartaz. O Rio Grande do Sul está de luto pelo que aconteceu. Eu acho que o mínimo é dar uma resposta para a família: por que aconteceu isso? Por qual motivo? Nós ficamos nessa dúvida, será que podemos deixar nossos filhos saírem na rua? – questiona Márcio.
Diferentemente da situação do dia 12 de agosto, na qual policiais militares atenderam a ocorrência da moradora e fizeram a abordagem ao Gabriel, Márcio relata que já entrou em contato com a Brigada Militar (BM) para registrar um furto na loja, porém, ninguém foi atender o chamado.
A empregada doméstica Estela da Fontoura Rodrigues, 47 anos, é de São Gabriel e conta que toda a população ficou em choque com o caso:
– Nós ficamos horrorizadas, nunca imaginamos que isso iria acontecer em uma cidade pequena. Não sei como vai ser daqui para frente, não nos sentimos protegidas pela Brigada Militar. A gente espera que haja justiça.
A sensação de insegurança a partir deste caso também é compartilhada pelo trabalhador João Fiusson dos Santos, de 70 anos:
– A própria Brigada Militar, que era para manter nosso cuidado, está cada vez pior. Espero que tenha justiça nesse caso.
Moradora de São Gabriel há 14 anos, a aposentada Eda Mercedes, 77 anos, está acompanhando os protestos por justiça e reforçou que o caso precisa ser esclarecido:
– Nós que temos filhos nos colocamos no lugar dos pais. Foi um caso horrível, todo mundo está comentando que espera que a justiça seja feita. Também precisamos descobrir exatamente o que aconteceu.
Relatos de moradores apontam outros casos de agressão
Embora indignados com a morte de Gabriel, no geral, os comerciantes da cidade reiteraram que já souberam de casos similares, porém, nunca tomaram conhecimento de algum com tamanha violência.
Um morador relatou haver comentários sobre supostas agressões de policiais militares:
– Nunca vi (presenciei) isso acontecer, mas sabemos que eles (policiais militares) pegam a gurizada que fica de arruaça na rua, leva para bem longe, dão uns cascudos, tapas, pontapés e largam eles há uns 20 km da cidade, como um modo de castigo para não fazer de novo.
Apesar disso, o coronel Vladimir Silva da Rosa, corregedor-geral da Brigada Militar, afirma que até este caso, nenhuma denúncia deste tipo havia chegado até a corregedoria ou à Policia Civil.
– O que importa é que fatos como esse não se repitam. A gente prima sempre pela ação dentro da legalidade, equidade e lisura. Tudo que aconteceu será apurado – afirmou o corregedoria.
O caso
Gabriel Marques Cavalheiro, 18 anos, desapareceu por volta da meia-noite do último dia 12, no Bairro Independência, em São Gabriel. Segundo o relato de uma moradora, ela teria chamado a Brigada Militar (BM) após o jovem ter forçado a grade da casa dela e tentado entrar no local. Policiais foram até o endereço, abordaram, algemaram Gabriel e o colocaram no porta-malas da viatura. Depois disso, o jovem não foi mais visto.
O corpo dele foi encontrado dia 19 de agosto, em uma barragem na região conhecida como Lava pés. Os três policiais (Arleu Júnior Cardoso Jacobsen, Cleber Renato Ramos de Lima e Raul Veras Pedroso) que abordaram o jovem tiveram decretada a prisão preventiva pela Justiça Estadual na tarde de terça-feira (23). A Polícia Civil tem a partir de agora, 10 dias para concluir o inquérito. Os policiais já estão presos pela Justiça Militar em Porto Alegre.
Outros PMs envolvidos no caso Gabriel serão ouvidos nesta quarta-feira
Pelo menos três policiais militares, que trabalharam no dia em que Gabriel Marques Cavalheiro desapareceu, vão ser ouvidos nesta quarta-feira. Estes policiais devem prestar depoimento na condição de testemunha. Já na quinta-feira, Paula Lima da Silva, mulher que acionou a Brigada Militar (BM) na noite da abordagem ao jovem vai prestar depoimento.